"1910 a duas vozes", a revolução republicana de 5 de Outubro vista por duas visões antagónicas: uma monárquica e outra, republicana

30-09-2010 09:10

 O livro encontra-se à venda em todas as livrarias, mas o lançamento do livro é a 4 de Outubro de 2010 na livraria Buchholz, Lisboa, com a presença dos autores.

O livro pretende trazer duas abordagens à implantação da República.A abordagem de um monárquico Mendo Castro Henriques e de um republicanos: Fernando Rosas

 

Excertos:

«Qual teria sido o rumo de Portugal se a acção das forças progressivas não houvesse sido capturada pelo Partido Republicano nas últimas décadas da Monarquia?

Nunca saberemos. Só sabemos que a I República foi uma ilusão desmascarada. Não a vemos caminhar no sentido da igualdade, nomeadamente entre homens e mulheres. Não a vemos realizar projectos de fomento industrial, nem qualquer tentativa de reforma agrária, de leis sociais. Aliás, nem sequer constituiu um exemplo seguido em países estrangeiros, republicanos ou não.»

 

monarquiaportuguesa.com,somosportugueses.com

 

«Poderia ter antecipado a experiência mexicana de regeneração pelo Estado. Poderia ter sido uma experiência de Socialismo, sete anos antes da Revolução Russa. Poderia ter estimulado uma forte iniciativa privada para compensar o excesso de concentração no sector comercial, indiferente para o desenvolvimento económico, estimulando uma forte iniciativa privada. A República não fez nada disso. Trouxe duas décadas de atraso económico e criou condições para a reacção autoritária. Foi morrendo aos poucos, golpeada pelos seus próprios apoiantes, sem que o Estado se tornasse mais representativo, a nação mais confiante, os mercados mais prósperos, a sociedade mais robusta ou os cidadãos mais livres, num rasto de jornadas sangrentas que formaram uma «passadeira vermelha» para o Estado Novo, de Salazar.»

«Cem anos da forma republicana do Estado em Portugal revelaram três tentativas distintas de construção da sociedade a partir do Estado, expressas nas três repúblicas vividas pelo Povo Português: jacobina, autoritária e pluralista. Duas caíram por implosão, e devido ao esgotamento da força política monopolista. Quanto à III República, é muito interessante constatar que os fenómenos políticos mais relevantes do início do nosso séc. XXI sejam as propostas da reconstrução do Estado a partir da sociedade civil. O desafio é restaurar um poder de base democrática mas de legitimidade suprapartidária, compatível com políticas públicas de desenvolvimento sustentável em todos os domínios. Após «cem anos sem rei», a História continua a mover-se em Portugal.»

 

 

«O período histórico que vai de 1850 a 1910 caracteriza-se pelo investimento, relativamente lento, em infra-estruturas que dêem à economia condições para o «arranque».

Ao iniciar esta corrida para a modernização, Portugal travava uma luta pela sobrevivência, numa fase em que outras nações europeias estavam mais adiantadas. Numa Europa onde a concentração industrial crescera, Portugal tinha uma forte concentração na agricultura, uma burguesia comercial dependente das importações e da solvência do sector financeiro, e um sector industrial débil.

Como advertia José Acúrsio das Neves, o liberalismo português não se focara na actividade industrial. Os revolucionários de 1820, a começar pelo Sinédrio, são desembargadores, comerciantes e militares. Os debates políticos focam-se na luta pelo controlo do Estado, o principal agente da economia. Para esta particularidade muito contribuía a macrocefalia de Lisboa. E o problema financeiro mais debatido é o nível de despesa do Estado, pouco se tendo em conta a sua adequação à fase do ciclo económico. Sirva de exemplo extremo o debate manipulado pelos republicanos sobre as despesas da Casa Real — nunca actualizadas entre 1860 e 1907 — e que serviu de propaganda eficaz contra a monarquia; ou a ridícula medida de Afonso Costa para controlar o défice público em 1913 e 1914, proibindo medidas que aumentassem o nível de despesa, sem encarar o impacto negativo no PIB do ano seguinte. Cerca de 1850, Portugal ainda não constituía um mercado interno e não tinha capitais suficientes para investir em infra-estruturas. Se definirmos como condições de «arranque» alguma capacidade tecnológica e uma média superior a 10% de taxa real de investimento sobre o Rendimento Nacional — a situação da Grã-Bretanha cerca de 1780, da França em 1830, dos EUA em 1845 —, não restava outra via senão o recurso a capitais estrangeiros para o processo de formação bruta de capital fixo. O Estado teve de assumir o papel de dinamizador que noutros países coube à burguesia. Foi essa a política sugerida por Costa Cabral e realizada por Fontes Pereira de Melo. Em 1842 Costa Cabral propõe-se a lançar uma política de fomento que pecou por ser financeiramente insustentável.

Na linha de Guizot, pretende concentrar o capital na alta burguesia financeira e latifundiária, deixando à margem a pequena e média burguesia rural e urbana. Esta abordagem criou dois problemas que se prolongam até à actualidade: os défices permanentes e a dificuldade do Estado em lidar com as classes que detêm a concentração de capital. Fontes Pereira de Melo obteve empréstimos externos e lançou uma política de fomento. A tese sobre «Portugal, país decadente» não resiste quando verifica-mós que a monarquia liberal soube criar os caminhos de ferro, a rede de estradas, a rede de escolas públicas, tendo também introduzido o sistema métrico, entre outros aspectos que fazem da Regeneração um período ainda hoje incomparável de crescimento. Se existiu algo semelhante a uma «revolução industrial» foi devido ao patrocínio e esforço da Coroa. A Geração de 70, que tanto contestaria o avanço intelectual da sociedade portuguesa com a tese da «Decadência», é ela própria um produto desse maciço investimento. Sem atender ao ponto de partida, é fácil insistir na visão de um país estagnado, em comparação com o resto da Europa. Esquecia-se que na Grã-Bretanha, França, EUA, Alemanha, e noutros países, decorreram cerca de 60 anos entre o arranque e a maturação económica que, em Portugal, deveria chegar cerca de 1910.» "1910, a duas vozes", Mendo castro Henriques

 

Lançamento do livro "1910 a duas vozes"

 

Prefácio do livro "1910" Mendo Castro Henriques (no prelo)