Entrevista a SAR D. Duarte Pio, pelo Correio da Manhã, a 1 de Dezembro de 2002

21-07-2010 02:51

"Os Portugueses são monárquicos"

 

monarquiaportuguesa.com,somosportugueses.com

 

 CM-O que significa hoje o 1º de Dezembro para os portugueses?

SAR-Nas grandes cidades, significa provavelmente mais um feriado. Mas continua a ser importante que se celebre o dia da Independência nacional. Este dia é sobretudo pretexto para isso.

CM-Os monárquicos dizem que a República não tem aval popular. Defende um referendo?

SAR-Se houver um número significativo de assinaturas (cerca de 10 mil pessoas) pedindo uma alteração do artigo 288 da Constituição, que indica que a forma de governo seja obrigatoriamente republicana, o referendo deveria ir avante. Este artigo é algo de aberrante e até perigoso e insulta metade dos países da UE, que são monarquias. Também insulta os portugueses, considerando-os intelectualmente menores. Deixam-nos escolher o Governo mas não entre um Presidente da República e um Rei Se esse referendo for avante, deverá então ser feito um esclarecimento público e a pergunta deverá ser elaborada de forma isenta.

CM-Se os portugueses dissessem sim à Monarquia em referendo, como é que da poderia ser restaurada?

SAR-Não poderia ser uma opção dramática. O povo deveria ser informado das vantagens e desvantagens deste sistema. Os monárquicos são contra uma chefia de Estado política. Eles querem uma pessoa que simbolize todo o povo, e não uma parte, que possa servir de juiz e árbitro nas grandes questões nacionais.O assunto tem de ser visto à luz da realidade e não da História.

CM-Existe o preconceito de que os monárquicos estão muito ligados à nobreza e sangue azul...

SAR-Os dois grandes fantasmas que pairam sobre a Monarquia são os de que com a implantação deste sistema, a aristocracia triunfava e a democracia retrocederia Quanto ao primeiro caso, basta ver que a presença da nobreza nas monarquias europeias é bastante moderada, em muitos casos não diferindo muito de certas repúblicas. Até há monarquias onde os nobres são proibidos, como é o caso do Japão. No segundo caso, quero dizer que os reis também são eleitos (e eventualmente destituídos) pelo povo, porque só se tornam monarcas depois de aprovados no Parlamento.Já os Presidentes, são teóricamente eleitos pelo povo mas são escolhidos e apoiados pelos partidos. Considero que o povo português é monárquico, uma vez que quer estabilidade na chefia de Estado.

CM-A República sente-se desconfortável com a Monarquia?

SAR-Sim. A causa monárquica incomoda alguns republicanos. O facto de não ter sido convidado para integrar a comitiva oficial que se deslocou a Timor aquando da sua independência, pode ser disso ilustrativo. Creio que tive um papel algo importante em todo o processo timorense. Mas não faz nenhum sentido este receio.

CM-Em que monarquia europeia se revê?

SAR-Todas elas têm a mesma essência, apesar das diferenças. No fundo, o rei deve ter uma relação estreita com o seu povo, quase familiar, e reforçar os laços com a lusofonia.

CM-A República está em crise?

SAR-Hoje, todos dizem que não temos tradições, arquitectura, agricultura e moeda. Está-se a criar a ideia que Portugal já não existe como país e é apenas uma sub-região da Europa. Isto é muito perigoso.

CM-Sousa Lara defendeu que a fàmília real representa os contos de fadas e por isso a população se sente atraída por ela. Quer comentar?

SAR-Existe uma dimensão um tanto mística sobre a família real. Um exemplo: uma recepção aqui com o príncipe do Mónaco é mais concorrida do que com a do presidente mais poderoso da Europa.

CM-Mas essa curiosidade em saber tudo sobre a família real também tem o seu lado negativo...

SAR-A família real britânica tem sido perseguida por magnatas de Imprensa, como Robert Murdoch, porque ele deseja vir a ser um dia presidente. Curiosamente, por mais escândalos que saiam nos tablóides britânicos, a reputação da Rainha, D. Isabel II continua imaculada. As campanhas contra o príncipe Carlos devem-se ao facto de ele ter defendido os pobres, abalando os interesses instalados.

CM-Em Portugal, este tipo de fenómeno seria de todo impossível em relação a um hipotético rei?

SAR-Não. Mas tento preservar a privacidade dos nossos três filhos que estão numa fase crucial do crescimento. Não quero que eles sejam apontados na escola só porque são meus filhos.

CM-Como interpreta este cenário internacional de terrorismo?

SAR-Os países ricos têm patrocinado guerras e governos ditatoriais em África e na Ásia, agindo segundo os seus interesses. O terrorismo é criminoso e cobarde, mas há quem pense que é a arma dos pobres.

CM-Concorda com uma possível invasão norte-americana no Iraque?

SAR-Porque é que o Iraque tem receio em mostrar as suas instalações nucleares? O país de Saddam já provou que é capaz de atacar terceiros com as suas armas poderosas. É preciso acabar com este perigo mundial.

CM-O "caso Prestíge" demonstrou que os dois países ibéricos ainda têm um grande caminho a percorrer ao nível da colaboração.

SAR-Este caso do petroleiro vem provar que tal acontece. Os dois países podem estreitar relações, desde que respeitem a sua independência.

 

 

fonte:revista "Domingo" do Correio da Manhã, de 1 de ezembro de 2002